A nuvem vermelha
de sangue
trepida vozes cristal-
inas
E eu coço a superfície
sensível e mortal
do meu corpo-
pele que,
adjunto,
trepida vozes graves
e negras
interpelável forma
essa - a do corpo
sempre essa
nunca a mesma
mas sempre
isso
Organismo orgiástico
minhas tripas fazem a festa
fora do corpo estático
elas vibram em corda
e em louvor
ao deus artaud
O arquétipo orgásmico
e o cosmos do nada
me acompanham no correr
das horas vagantes
Janaína se deita
No leve encostar da face no travesseiro, os pequenos flocos de poeira se erguem e formam a estufa sonora de Janaína. Cada floco solta seu silvo agudo afim de reerguer seu corpo cansado de uma cama velha. A fantasia vai ter que conviver com o sono ou o sono deve engolir a fantasia para que Janaína possa finalmente adormecer. Mas então ela mesma corta sua estufa com as próprias mãos, recriando um útero, como que uma fruta madura. Assim ela profere palavras de amor à um ser que não existe e finge abraçar o ar à sua frente que continua seco, árido e mais belo do que nunca.
A morte do garanhão
Eu puxava e repuxava as rédeas mas você insistia em rebater. Minhas mãos esfoladas não aguentavam mais te segurar. Tive que deixa-lo correr. E correu com seu corpo pesado no barro e me fez esquecer o medo.
dizem que você sente o cheiro do medo.
Que seria o cheiro do medo?
De que importa
Eu-cavalo-eu:medo
E seguiamos pela relva
Até eu cair na realidade-resort
e no delírio-notebook
Seria esse o fim do garanhão.
[água.
Contorno e geografia
onde suas tramas vão parar?
quando vão deixar de se ramificar?
Esses rios que correm em direção
ao seu centro, ao seu cerne
eles existem?
quero conhecer o outro
quero contornar o outro
o outro não deixa de ser
eu
Nariz
vivendo nesse fio de lã precário
tênue e ralo da vida tosca
e tediosa que levo
penso em você e nesse nariz
esse nariz tão imponente
O que eu faço com isso?
Penso em suas proporções e sempre rio…
“haha. Isso? É a nossa amizade” você vai dizer
“e eu te amo” eu vou pensar
e ninguém vai fazer nem dizer mais nada
Pneumofágica
No crescente da fadiga que brota dos dedos das mãos
penso em cortar os brônquios
para que não sofram mais
para que não fadiguem mais o peito aberto
Aquele velho peito agora rouco
chia como um miado agudo